terça-feira, 28 de julho de 2009

a contradição

a condição humana é dada pela certeza da morte. a certeza da morte, no entanto, está encoberta pelas circunstâncias gerais socialmente produzidas ao longo do tempo.
eu desejo a vida na vadiagem; o tempo passado no bar com amigos é possível pelo trabalho e pela manutenção da sociedade burguesa: 1- trabalhadores que produzem cerveja em todos seus estágios, engarrafagem, distribuição, etc. isso implica estrutura urbana para escoamento de mercadoria, caminhões para transporte de cerveja, amendoim, etc. 2- atuação do poder público na garantia de iluminação pública, segurança. segurança: sem a repressão aos excluídos seria possível o happy hour do universitário? é necessário o meu trabalho (ou de meus pais) para poder consumir: aquecimento da econômia, etc, sistema de preços, salários, combustível dos caminhões de cerveja, do ônibus, tarifa do ônibus.
o desejo de uma vida sem trabalho em que todos a aproveitem choca-se com a necessidade de produzir o tempo todo.
a produção está oculta. aparece apenas a disponibilidade do produto, o que leva a ilusão de que a vida poderia ser muito mais simples: contudo a vida está marcada pela contradição. a variedade e quantidade de alimentos a preço acessível no supermercado oculta o processo longo de sua produção, distribuição, implicações políticas, inserção no sistema mundial de preços. pessoal uniformizado de limpeza nos estabelecimentos, lixeiros que trabalham de madrugada fazem sumir todo o descartado do consumo excessivo. pela manhã tudo está limpo como que por mágica.
o filho da classe média tem essa mesma sensação dentro da própria casa: roupa limpa e passada, almoço pronto na hora certa, casa limpa. divisão familiar do trabalho. divisão social: há empregadas domésticas.
então, o tempo de usufruir das mercadorias é o tempo da vida. o tempo da vida oculta o tempo da produção, que é o tempo do consumo da vida. portanto a natureza separada da produção em relação ao consumo oculta também a realidade da morte em relação à vida.

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