domingo, 11 de outubro de 2009

inspirado em walter benjamin. dedicado ao vazio

um homem de meia idade, funcionário bem sucedido de uma empresa nacionalmente reconhecida. fora do trabalho, sábado/domingo, ele senta em frente de sua t.v. lcd que fez questão de comprar à prestação. "só assim se pode aproveitar tecnologia h.d.". ótima imagem, som de última geração - por isso o volume excessivamente alto, para não perder os detalhes, " para poder ouvir os graves". assistir o quê? ouvir o quê? não interessa: a técnica é um atrativo em si mesma.
a escravidão do trabalho não permite que se cultive gosto algum. não há tempo livre para buscar interesses mais profundos. nossas ecolhas, portanto, restringem-se ao que é mais imediatamente oferecido pelas imagens da propaganda/cinema/novela, como se não houvesse outras opções além da variedade ilusória do mesmo, repetida incessantemente na propaganda/cinema/novela.
o prazer do homem médio limita-se a meia hora semanal de ilusão - ao ato de fazer algum uso da porcaria tecnológica adquirida a custo de tanto esforço. a alegria de ter, não é uma simples perversão que encobre o ser: é o processo complexo de identificar a felicidade a algo artificialmente existente na mercadoria.
é a representação da mercadoria, anterior a seu consumo, que garante este engano. na propaganda a t.v. lcd é assistida por uma família branca e feliz, por um casal de belos jovens sorridentes; ela está em uma sala de estar limpa, bem arrumada e bem iluminada; de design leve e discreto, mas refinado e aconchegante; mobília moderna.
o descompasso entre a representação da vida idealizada e a miséria concreta da vida cotidiana se expressa na permanência da infelicidade, apesar da aquisição do objeto que une um mundo e outro.

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