segunda-feira, 23 de novembro de 2009

produção e reprodução





a vida dos "artistas" é diariamente transformada em espetáculo. independente dos reality shows é possível fazer espetáculo sem um programa de televisão com contratos formais. quando pessoas mais ou menos conhecidas (dani bananinha) estão em público é possível aproveitar a oportunidade de produzir imagens, e a partir dela produzir uma história para ser vendida. as notícias do portal terra têm anúncios do itaú e do bradesco, de uma empresa de imóveis e do celular lg.
na notícia sobre luana piovani, "a atriz protagonizou cenas quentes com o namorado". vida cotidiana convertida em espetáculo. claro, além do itaú e do bradesco - empresas com responsabilidade social - a própria luana piovani (ou qualquer uma das outras) é agente da espetacularização da própria vida.
os leitores fazem comentários sobre as notícias, embora seja exatamente a mesma notícia nos quatro casos. não são poucos comentários, mas são os mesmos. comentários de quem vê gostosas de bikini na praia. gostosas famosas, no caso. e não na praia, mas na tela de um computador, embora a foto seja na praia; em seu computador de trabalho, um trabalhador medíocre de escritório, em horário de almoço tem, assim, a oportunidade de renovar os temas de seus comentários vazios com os colegas, além de interminável disponibilidade de entretenimento repetido.

sábado, 14 de novembro de 2009

pela democracia/liberdade

filme importante. importante porque cria, ou pelo menos confirma valores, sem intenção explícita de fazê-lo.
no fim do filme, brendan fraser derrota jet li. jet li é o imperador chinês, ou algo assim, um típico déspota oriental. brendan fraser é um americano comum. portanto, fraser apanha de jet li, que domina a arte da luta. contudo, fraser, é o americano comum, o que significa que luta por seu ideal, e pelo esforço e pela vontade, supera os poderes sobre-naturais e a arte profana e maligna de luta do soberano oriental, mesmo estando em aparente desvantagem.
assim que jet li é derrotado, os soldados chineses, que são múmias (o que não tem nenhuma importância), logo percebem, "o imperador está morto!!", comemoram o fim de seu senhor autoritário, viram areia e descansam em paz.
brendan fraser, o americano comum, libertou da opressão todo um povo, que a princípio não lhe dizia respeito, pela derrubada de jet li, o cruel - é o cinema americano reproduzindo, banalizando, naturalizando e criando narrativas justificativas análogas à ação dos eua, no que diz respeito à sua tradição de intervenções em questões de países não-democráticos.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

investir no futuro

propagandas de banco são mentirosas até o absurdo. dão-se ao trabalho de produzir imagens relacionadas a tipos específicos de situações e pessoas: todos os tipos de pessoas são clientes em potencial. o banco é um mal "necessário". a propaganda, então, tenta criar o necessário não necessariamente mal; o necessário como necessidade para a felicidade. são imagens distantes do banco da vida real. na vida real a experiência de usar o serviço bancário tem marcas pouco agradáveis: filas, guardas armados, câmeras de segurança, porta giratória, atendentes e gerentes cujas vidas não são mais que extensão do caixa eletrônico.
(clique na imagem para ver melhor. intervenções em vermelho são minhas). as imagens associam o banco ao sonho, ao investimento seguro no futuro. o sonho do carro novo, a velhice saudável. ter uma conta que dê as melhores vantagens significa um meio de cuidar bem do futuro do próprio filho. no primeiro panfleto, um garoto sorridente de cabelo penteadinho...ao fundo, carro, família, torre eiffel (!), um avião, é o futuro ideal...dar um futuro feliz para o filho é garantir que, além de reproduzir a mediocridade do pai, tenha a possibilidade de viajar pelo mundo - como se isso pudesse ser garantido pelo serviço bancário em questão...
no panfleto de baixo, "seguro de vida": um almofadinha/jovem de classe média bem sucedido -possível futuro do garoto do panfleto de cima - com três filhos bebês e um sorriso idiota no rosto. inexplicável e absolutamente irreal. "se a responsabilidade é grande, a alegria é três vezes maior." lembremos, o panfleto é sobre seguro de vida: trata-se de alguém que colocou três novos seres humanos no mundo, mas é responsável o suficiente para não deixá-los desamparados no caso de sua morte prematura e violenta. daí o sorriso, de alguém seguro de cumprir com suas responsabilidades de pai.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

hannah montana

hannan montana é uma menina como qualquer outra. exceto pelo fato de que esse não é seu verdadeiro nome: ela se chama miley cyrus na vida real.
miley cyrus é uma menina como outra qualquer: 16 anos, tem uma banda de rock, muitos amigos, uma família feliz. de vez enquando tira fotos sexuais que por ventura caem na net
tem um programa de televisão feito pela disney. é uma série infanto/juvenil. a série trata da vida comum cotidiana de uma menina como qualquer outra, miley cyrus. situações engraçadas na escola, namorinhos, amiguinhos e festinhas. a vida dos adolescentes/pré-adolescentes/pós-infantis não é fácil, portanto. miley cyrus representa e dá voz aos adolescentes/pré-adolescentes/pós-infantis, filhos da classe média do mundo civilizado. isso significa que ela tem o poder de escapar a essa terível condição do cotidiano desta classe tornando-se uma super-pop star: hannah montana. como todos sabem, os super-pop stars superaram os problemas da vida comum. hannah montana, então, representa o sonho da superação possível para cada triste filhinho de papai desse mundo.
os mais desatentos podem achar que a única diferença entre hannah montana e miley cyrus é esta peruca loira usada pela primeira. na verdade a diferença está no espírito.
recapitulando: 1-ela chama-se miley cyrus na vida real: é uma menina comum e uma pop star; 2- a personagem dela na série também se chama miley cyrus na vida de menina comum, e também é pop star, mas, na série, quando assume esse papel, tem o nome de hannah montana - indistinção total entre realidade concreta e representação: reprodução da vida em programa de tv.
agora o mais importante: descobri que miley cyrus tem uma irmã mais nova, chamada noah cyrus. direto ao assunto: segundo o respeitável portal de notícias terra, noah cyrus tem 9 anos e usava botas de stripper quando esteve em um evento beneficente para crianças com aids. (clique na imagem a baixo para ficar mais esperto! intervenções em vermelho são minhas)
última coisa, o google, definidor absoluto do que é e do que não é importante, mostra que escrevendo "hannah", aparecem 4 referências a hanna montana, antes que apareça uma a hannah arendt! (clique na imagem a baixo para saber melhor o que é mais importante.)

domingo, 1 de novembro de 2009

colina silenciosa

filme ruim, sem surpresas, sem nada de mais. adaptação de vídeo game: caminho natural mais do que previsto dentro da indústria cultural. a capa é muito boa, admito.
o que interessa é o final, quanto a um aspecto particular - não em relação ao filme como um todo: o filme como um todo dispensa qualquer sentido.
na cena final os habitantes de silent hill estão para sacrificar uma criança e mais alguém na fogueira. a representação remete diretamente à inquisição. esse tipo de apropriação de imagens recorrentes com sentido deslocado é responsável por uma infinidade de equívocos.
no filme, a cena da fogueira acontece ordenada por uma líder, que é como uma sacerdotisa, ou algo assim. ela comanda a massa de ignorantes que pede a morte e se enraivece de acordo com suas palavras. 1- a sacerdotisa tem um olhar sádico, de desejo de ver a menina queimada na fogueira; 2- a massa não pensa, segue o líder.
a pessoa que vê inocentemente o filme, ou seja, todas as pessoas - esse filme não foi feito para ver criticamente - indiretamente confirma preconceitos sobre o tribunal do santo oficio, o que é gravíssimo. o catolicismo não é movido pelo sadismo. a inquisição funcionou de acordo com fundamentos racionais de seu tempo. 1-sou anti-católico; 2- tenho uma desconfiança: existe uma longa tradição do cinema americano-protestante que contribui para criar um estigma de ocultismo-sádico-irracional-pervertido sobre as práticas do catolicismo. se fosse só isso seria mais fácil vencê-lo.
além disso, sobre a questão das massas, confirma o preconceito sobre o líder manipulador e a população indistinta que não escolhe por si só.
ou seja, o filme não tem nada a ver com estes assuntos e passa longe de explicitar essas coisas: justamente por isso é que forma concepção. aparecem como detalhe, como acessório, como ponto que não é preciso justificar: como algo que é natural e do conhecimento de todos.
opiniões, valores, concepções, formam-se de forma fragmentada, a partir de associações mais ou menos arbitrárias entre elementos extraídos de fontes aleatórias, regidas por forças externas de constrangimento e necessidade.

registros do real