quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

"a natureza é a igreja de satã"

a cidade é a expressão da luta do homem contra a natureza: as casas, a luz elétrica, o traçado planejado das ruas, são a vitória do homem contra a natureza externa, ou seja, a floresta, os animais, a escuridão, a falta de alimentos, a morte precoce ou súbita. as casas, a luz elétrica, o traçado planejado das ruas, também são a vitória do homem sobre sua natureza interna, pois além do mais, é isso que dá ao homem "civilização e polidez", como diz carlos stevenson. as ruas e estradas bem pavimentadas permitem que a força de trabalho se desloque de forma mais eficiente, portanto menos dispendiosa - o mesmo quanto às mercadorias que produz. o homem é o que consome. as mercadorias - livros, dvd, alimento, drogas (cerveja, etc) - chegam em abundância e preço acessível às estantes do supermercado; a luz elétrica permite o prolongamento das atividades após o pôr do sol. é graças às casas, a luz elétrica, ao traçado planejado das ruas que o homem cria uma nova sensibilidade que afasta de seus olhos, narizes e mãos aquilo que nele há de animal, de escuridão, de floresta.
a nova sensibilidade ensina ao homem que é normal/natural chocar-se e sentir náuseas e medo diante de certas coisas. sem esgoto e água encanada, para além das dificuldades com a manutenção da saúde, o homem muda sua relação consigo mesmo: a forma como o homem moderno pensa a si mesmo depende 1- do fato de que a privada de seu banheiro leve embora, imediatamente e sem nenhum contato, todos os excretas que seu corpo produz, 2-do fato de existir papel higiênico, 3-e do hálito fresco garantido pelo hábito cotidiano de escovar os dentes usando para isso a liberdade de escolher o creme dental que mais lhe agradar; uma menina de classe média, 19 anos, universitária, não pode deixar de se sentir a pior pessoa do mundo, caso não possa tomar pelo menos dois banhos por dia.

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