quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

o anticristo

"a natureza é a igreja de satã".
o maior medo é o medo de si mesmo; o medo do que há de desconhecido e obscuro no homem em estado de natureza. a explicação racional da natureza é o recurso humano contra o medo e, ao mesmo tempo, instrumento de dominação. o homem domina pela razão os sujeitos considerados portadores da escuridão primitiva das florestas, portadores da morte. a razão moderna é uma invenção masculina, mas com pretensão de alcance universal. a mulher é considerada irracional e precisa de controle. a razão moderna é uma invenção burguesa, mas com pretensão de alcance universal. o pobre é considerado irracional e precisa de controle. a razão moderna é uma invenção européia, mas com pretensão de alcance universal. o não-europeu é considerado irracional e precisa de controle.
na floresta, onde predomina a escuridão, predomina também a morte, como regra. "a natureza é a igreja de satã". a civilização racionalmente organizada pretende o controle - ou a ocultação da morte. o contato com o que resta de escuridão - o contato com a morte -, ativa o medo primitivo.
a luz fraca da razão faz o que pode, até que seus artifícios não suportam mais o peso da grande massa de excluídos. o psicanalista - limite da pretensão da razão, vencedor apenas por hora -, é cercado pelas mulheres oprimidas de todos os tempos, que saem da floresta para enfim sufocá-lo.

domingo, 26 de dezembro de 2010

conversa com a parede

1- sempre que os melhores homens da classe média argumentam contra o absurdo da utopia da sociedade igualitária, aparece a noção de natureza humana. para eles, é devido à natureza humana o fato de os homens serem diferentes, e é devido à diferença entre os homens que há legitimidade na exploração, na dominação e no controle que uns aplicam sobre outros. com esse argumento os melhores homens da classe média dispensam o conhecimento da história, para defender que "sempre foi assim", e por isso assim será eternamente.

2- o governo do pt esteve desde o começo, e estará até seu fim, comprometido com a defesa dos interesses das elites. mas os melhores homens da classe média odeiam os programas sociais do pt. o assistencialismo do governo lula, cuja função é o apaziguamento da luta de classes - ... -, além de dar algum conforto aos miseráveis, protege de agitações mais comprometedoras o modo de vida da classe média. mas o bolsa família é entendido como uma ofensa ao valor do trabalho no qual se apóia toda a abundância de misérias que um bom salário pode comprar para a classe média; felicidade de shopping center, terapia de casal, colégio particular, carro particular, prostitutas de luxo, psicólogo para as crianças.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

amores brutos

dois meio-irmãos são sócios e proprietários de uma grande empresa. a ganância leva um deles a encomendar o assassinato do outro.
na sociedade capitalista a prerrogativa principal do homem endinheirado é a possibilidade de pagar por todas as coisas. o homem endinheirado não faz nada diretamente; o poder de compra é o meio pelo qual é possível transferir responsabilidades a alguém cujo serviço está a venda.
mas o contrato que dá ao dono do dinheiro o direito de cobrar do assassino de aluguel que este cumpra com suas resposabilidades, é quebrado quando o assassino de aluguel coloca, primeiro, frente a frente, os meio-irmãos sócios e proprietários de grande empresa e, depois, o revolver nas mãos do meio-irmão que o contratou.
o empresário bem sucedido/bem vestido - de terno - é capaz de contratar um assassino - um homem de roupas em farrapos, que vive com cachorros e lixo -, mas é incapaz de puxar o gatilho do revolver.
a autoridade do dinheiro determina que o trabalho sujo seja feito, sob encomenda, pelo homem sujo.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

jonas brothers

essa bobagem de escrever blog é completamente inútil.
os jonas brother têm alcance em toda a indústria cultural: música, filme, seriado diário de tv, e certamente muito mais. não são simplesmente mercadorias sem qualidade, são suportes da ideologia dominante e o meio que vincula o invento mais artificial da classe média: o pré-adolescente.
a série dos jonas brother tem um tema central: o quanto é difícil ser um dos jonas brother. na série, os jonas brothers interpretam a si mesmos, como estudantes que são ao mesmo tempo astros do rock.
no seriado, em quadros divertidos e inocentes, sem nenhuma maldade, a fama os torna a pior espécie de egoístas, ignorantes e hipocritamente moralistas; são, ainda assim, amados por todos.


segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

domingo, 28 de novembro de 2010

humanidades .3

hoje em dia só tem valor o que pode servir para produzir lucro. só tem valor o que pode servir para produzir o lucro alheio; tem reconhecimento o sujeito que estuda para servir a uma empresa qualquer, um sujeito cuja formação lhe garanta um emprego com bom salário e motivação para contribuir com os ganhos da empresa que o paga bem.
a universidade forma o profissional qualificado para o mercado de trabalho, e este é o sonho de todo cidadão honesto.
esta função social da universidade coloca o estudante de ciências humanas no papel do bom leitor de textos, incompreendido e inútil.
a universidade irreversivelmente atrelada ao poder do capital privado, aniquila a legitimidade e a importância do estudo das idéias.
o estudante de ciências humanas, ideologicamente convencido da inutilidade de sua função, desiste. depois de desistir ele irá procurar um emprego decente que agrade seus pais.
mas também há os melhores militantes anticapitalistas. eles também descobriram a inutilidade do estudo das ideias, dos conceitos, de todo esse trabalho lento de biblioteca e de compreensão teórica falida.
os melhores militantes anticapitalistas entenderam que as transformações dependem de ações; descobriram que o estudo acadêmico de textos é perda de tempo elitista.
involuntariamente, os melhores militantes anticapitalistas apoiam a opinião dos melhores militantes capitalistas sobre a inutilidade das ciências humanas.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

red dead redemption

hoje em dia a tarefa protetora da mãe moderna consiste principalmente na preservação da moral sexual dos filhos - e filhas. em sua tarefa de vigilância educativa a mãe censura o acesso dos filhos a certas liberalidades da sociadade corrompida na qual tem a difícil missão de criá-los. curiosamente a censura ao sexo parece ser levada muito mais à sério que a censura à violência e ao preconceito - tanto racial, como social e de gênero.
"esse jogo não tem pornografia, né?", pergunta a mãe preocupada com a educação de suas crianças. como não tem, de fato, a criança está liberada para divertir-se com red dead redemption.
mas red dead redemption é um jogo acessível para adultos capazes de possuir um playstation 3. é um público composto por pessoas que chegam cansadas do trabalho e têm neste jogo um entretenimento terapêutico. durante horas poderão desligar-se um pouco do stress cotidiano para matar mexicanos bêbados e amarrar prostitutas de saloon na ferrovia, apenas pelo prazer de assisti-las sendo estraçalhadas pelo trem. tudo em um belo cenário western gerado pelo que há de mais avançado em termos de computação gráfica.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

salão do automóvel

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"O homem é um ser de desejo. Daí, explica-se parte do sucesso dos salões do automóvel pelo mundo"
"Ao lado das supermáquinas, claro, estão as supermulheres, tornando os veículos mais desejáveis do que eles possam parecer. Vestidas como femme fatale, elas e os carros são uma combinação explosiva no imaginário masculino"
"apenas a Volkswagen fez um agrado, investindo em um Espaço Mulher. Lá, elas têm as unhas pintadas com as cores dos veículos da marca e ganham um kit com três esmaltes"
"A primeira a fazer isso [mais prestígio ao público feminino], vai se dar bem. Afinal, as mulheres não resistem a uma relação romântica, especialmente para a aquisição de um símbolo de poder e liberdade individual como um automóvel zero e brilhante."

matéria do yahoo sobre o salão do automóvel
http://br.especiais.salaodoautomovel2010.yahoo.com/noticia/post/salao_do_automovel/63/as-mulheres-no-salao-do-automovel.html

domingo, 7 de novembro de 2010

guerra ao terror

a monotonia da vida cotidiana no mundo capitalista chega a tal extremo que todo o sentido se perde no contato com a morte. a morte banalizada na guerra imperialista sem sentido revela ao soldado desarmador de bombas a falta do sentido da perpetuação da família americana típica. de volta do iraque, o dilema maior ao qual está submetido o soldado, agora convertido em cidadão comum - consumidor -, está em decidir, diante da estante infindável do supermercado, qual marca de cereal escolherá para o café da manhã. o cidadão americano comum/consumidor é livre para escolher o cereal que mais lhe agrade.
diante da monotonia cotidiana insuportável e sem sentido, o soldado retorna ao iraque para vivenciar a existência de forma mais intensa: na tarefa de desarmar bombas a proximidade da morte revaloriza a vida a cada momento.
entretanto, o soldado, mesmo em sua fuga individual da angústia generalizada, na verdade está a serviço do capitalismo imperialista americano. seu ofício perigoso e empolgante de desarmador de bombas, fatalmente é parte de um projeto maior; a guerra no iraque tem como objetivo tornar o cidadão comum iraquiano um consumidor livre para escolher o cereal americano que mais lhe agrade.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

cliente mais

a impessoalidade das relações pessoais chega ao seu limite no caixa do supermercado. a atendente cansada e mal paga repete pela milésima vez na mesma noite: "boa noite. cliente mais? cpf na nota?"
a exploração integral das capacidades de seus funcionários pelo grupo pão de açúcar tem a aparência de atendimento diferenciado; o caráter mecânico do trabalho repetido de usar o leitor de código de barras é estendido ao contato da atendente com o cliente mais.
a atendente veste o uniforme pão de açúcar, com os cabelos presos de acordo com o padrão recomendado e a fala presa de acordo com o padrão exigido. a distância que imediatamente há entre o cliente mais e a atendente contratada pelo pão de açúcar, torna-se, graças ao padrão de atendimento, distância entre gente e pedaço de máquina.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

polícia .2

a diversão da classe média depende da atuação da polícia para a repressão cotidiana dos marginais. a polícia elimina o bandido que lesa a propriedade do funcionário bem sucedido de empresa multinacional; a polícia precisa matar o bandido antes que ele leve embora os bens comprados pelo filho da classe média com a mesada que permite que ele se dedique cuidadosamente aos estudos. esses bandidos são violentos como também são violentos os pedintes e mendigos que a policia retira da vista da classe média; os excluídos comentem a violência de estragar o fim de semana da classe média, fumando crack debaixo dos viadutos de toda a cidade.
quando a polícia, sem nenhuma razão, abusa da força contra a classe média, a classe média percebe que existe algo de muito errado na sociedade; percebe que seus direitos não são respeitados como deveriam, e que é preciso fazer algo a respeito.

polícia


"Dizem que ela existe
Prá ajudar!
Dizem que ela existe
Prá proteger!
Eu sei que ela pode
Te parar!
Eu sei que ela pode
Te prender!...

Polícia!
Para quem precisa
Polícia!
Para quem precisa
De polícia...

Dizem prá você
Obedecer!
Dizem prá você
Responder!
Dizem prá você
Cooperar!
Dizem prá você
Respeitar!...

Polícia!
Para quem precisa
Polícia!
Para quem precisa
De polícia" - polícia

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

robin hood

esses filmes históricos são muito educativos e despretenciosos. então, batalhas sangrentas do século xii são entretenimento que nada têm a ver com o sujeito diante de seu dvd player no século xxi. então, robin hood, pretensamente mais histórico que mítico, abre a boca para dizer palavras de justiça contra a opressão que sofrem seus companheiros. é o discurso liberal 500 anos antes de seu surgimento histórico. mas não se trata de anacronismo ignorante; na verdade está colocada uma concepção política ideológica, segundo a qual o direito de propriedade é um valor universal. não é justo pagar ao rei taxas tão abusivas sobre aquilo que fora dignamente produzido por trabalho honesto. de fato. entretanto, o rei aparece apenas como mal; justifica expressamente seu direito divino de governar, como uma mentira que precisasse ser lembrada a todo momento.
então, o processo histórico foi reduzido à questão moral, e o discurso liberal apresentado e justificado como verdade evidente que devia apenas ser revelada aos homens comuns por robin hood.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

terça-feira, 28 de setembro de 2010

parede de vidro


a família feliz dentro do mcdonalds tem uma experiência feliz-colorida de sonho e comida artificial. pela fachada de vidro a filhinha do jovem casal bonito vê chegar rastejando uma mulher suja e de aparência envelhecida; roupa em farrapos e crianças de pele escura e suja: uma no colo e mais três pelo chão.
a fachada de vidro do mcdonalds confirma para quem vê de fora, o sonho feliz-colorido artificial produzido pela propaganda. a fachada de vidro do mcdonalds impede o contato com os indesejáveis mas, acidentalmente, constrangeu a família feliz e estragou, por dois ou três minutos, a experiência colorida-maravilhosa mcdonalds.
o jovem casal de pais lamenta que a filhinha, tão alegre, no dia de seu aniversário, tenha sido exposta a uma situação tão triste. eles têm, certamente, responsabilidade social e sensibilidade, "algo precisa ser feito para melhorar a condição dessas pessoas..."
a família feliz dentro do mcdonalds tem certeza de que seu modo de vida nada tem a ver com a infeliz fatalidade da condição das pessoas esfarrapadas e sujas que a fachada de vidro acidentalmente permite ver. "essa condição precisa mudar..."

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

juventude .3

assim que se despede de suas convicções transformadoras, assim que se defronta com a impossibilidade de oferecer resistência à realidade que um dia quis mudar, o estudante de ciências humanas filho da classe média descobre, com alívio, que as coisas são o que são. diante da irracionalidade evidente da luta contra o mundo como ele é - lugar onde só se sobrevive pelo mérito individual e competitividade - descobre que é preciso adequar-se. acontece...mais cedo ou mais tarde. vendido às tendências do mercado, o estudante de ciências humanas filho da classe média justifica sua nova postura pelo argumento irrefutável de que "afinal, é preciso ganhar dinheiro, pôr comida na mesa. obter o próprio sustento", o que, para ele, significa ter carro bonito, playstation 3, t.v. lcd, etc. contra este argumento não é aceitável nenhum contra argumento do pontode vista da ética.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010



"Para o homem privado o interior da residência representa o universo. Nele se reúne o longínquo e o pretérito. O seu salon é um camarote no teatro do mundo." - walter benjamin








sábado, 4 de setembro de 2010

iniciação revolucionária

o militante de movimento estudantil está constantemente constrangido a desperdiçar suas boas ideias e intenções quando entra em contato com a massa de estudantes comuns. o militante de movimento estudantil moderno já aprendeu que, hoje em dia, para atingir seu público alvo é preciso ser agradável, engraçado, despojado na linguagem. a missão de distribuir consciência é realizada com eficiência pela militante bonitinha de movimento estudantil; sorriso de atendente de mcdonalds no rosto e roupa comprada em shopping center. só assim a massa alienada dos estudantes comuns pode possivelmente ser convencida a romper sua inércia vergonhosa de jovem de classe média.
- oi! já participou do abaixo-assinado?
-não. depois eu assino...
-ah... tudo bem. tchau!
a militante bonitinha de movimento estudantil, com sorriso no rosto, responde como quem diz "obrigada. volte sempre!". o estudante alienado da massa de estudantes alienados voltará mais tarde e assinará o abaixo-assinado, sem saber do que se trata.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010






terça-feira, 24 de agosto de 2010

terminal central

o sindicato resolveu fechar os portões do terminal central. isso durou quase uma hora. uma hora da tarde e o 3.30 lotado parado no terminal fechado, transformou-se em sauna de calor humano. à essa altura, as estudantes universitárias, já suadas e estressadas, sofrem por não terem seus próprios carros; reclamam porque estão atrasadas e perderão a primeira aula, "é uma falta de respeito", "um absurdo". em outra parte um homem de meia idade e, certamente, baixo salário, declara "se fosse em são paulo já tinha resolvido! chamava a tropa de choque e abria logo o portão". um motorista responde à pressão dos passageiros "não quer esperar, sai do ônibus e vai à pé!". outro motorista comenta com um cobrador "bando de vagabundos! a gente aqui querendo trabalhar!" não era greve, nem paralisação; o sindicato fechou os portões. ninguém sabe. de repente passa um louco e ri sozinho, depois um bêbado - no terminal central os bêbados são bêbados em tempo integral. finalmente o sindicato abre os portões; os ônibus saem e a vida segue. os mendigos continuam aos montes pelo chão, catando nos lixos, sujos, cambaleando.

domingo, 22 de agosto de 2010

juventude .2

na noite de sábado, o jovem de classe média sai à procura de fêmeas. natural, saudável. os bares de bairros de classe média são feitos para o homem jovem de classe média, pois o valor de 10 reais para mulheres e 15 reais para homens, apenas para entrar, deve evitar a presença do pobre e proporcionar boa oferta de mulheres - mas o atrativo da boa oferta de mulheres deve atrair o interesse de homens dispostos a contribuir com 15 reais...
o homem jovem de classe média chega ao bar e confere, ainda pelo lado de fora, qual a situação da oferta de mulheres. avalia quantidade e qualidade, como quem escolhe carne olhando pelo vidro da geladeira do açougue, antes de decidir se seus 15 reais valerão a pena. avalia também a a concorrência, a quantidade de homens dentro do bar. neste momento nota que ao seu lado, fora do bar, há homens precavidos como ele, que fazem a mesma coisa.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

freedom



richie havens, freedom

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

"inércia e inépcia"

são dias ruins. surpreendentemente, dias ruins ainda podem se destacar em um contexto de anos ruins. a vida em regime semi-aberto voluntário de classe média tornou-se totalmente intolerável; a aceitação da repetição cotidiana permanece inalterada e em choque destrutivo com a percepção, cada vez mais clara, da mais completa ausência de sentido.
"entre os mortos ainda há alguns vivos". resta um olhar sem expressão, um olhar de morto; sem decepção e sem esperança; indiferente diante do mundo, como se com isso o mundo fosse retribuir simplesmente do mesmo modo. na verdade, o mundo (capitalista-industrial-urbano-etc) retribui com violência; agrava a mediocridade, a indiferença, a ausência de sentido, e disso se alimenta...

domingo, 8 de agosto de 2010

dia dos pais

um homem que teve filhos sem saber porque, e não se pergunta sobre isso em momento algum. não se trata de acidente, planejou seus filhos como decorrência do casamento. ainda assim não está explicado. e a explicação continua dispensável; todos têm filhos: seus pais, seus tios, seus vizinhos...
fez o melhor que pode, trabalhou duro a vida toda para dar aos filhos boa escola, boa educação...boa alimentação, garantias de bom futuro. trabalhou tanto pelo futuro dos filhos que não teve tempo de saber muito sobre eles. não é o clássico pai opressor, é o pai responsável. apesar disso, chegando à meia idade, resta o constrangimento diante da propaganda do dia dos pais na tv, quando a imagem construída e idealizada pelo capitalismo se distancia da realidade da distância insuperável que o separa dos filhos.
no fim de sua vida ele viverá - novamente sem saber porque - uma cena aprendida com os filmes de holywood, que assistiu distraidamente:
-deveria ter sido um pai melhor!
-não! eu é que deveria ter sido filho melhor!
lágrimas, reconcilhação, mentiras, e as lembranças do passado se convertem em imagens de propagandas do dia dos pais.

sábado, 31 de julho de 2010

isolamento .3 taxi driver

"Até mesmo a multidão que se movimenta pelas ruas têm qualquer coisas de repugnante, que revolta a natureza humana. Esses milhares de indivíduos, de todos os lugares e de todas as classes, que se apressam e se empurram, não serão todos eles seres humanos com as mesmas qualidades e capacidades e com o mesmo desejo de serem felizes? E não deverão todos eles, enfim, procurar a felicidade pelos mesmos caminhos e com os mesmos meios? Entretanto, essas pessoas se cruzam como se nada tivessem em comum, como se nada tivessem a realizar uma com a outra e entre elas só existe o tácito acordo pelo qual cada uma só utiliza uma parte do passeio para que as duas correntes da multidão que caminham em direções opostas não impeçam seu movimento mútuo - e ninguém pensa em conceder ao outro sequer um olhar" - friedrich engels, a situação da classe trabalhadora na inglaterra

o homem urbano solitário tem a percepção de seu isolamento constantemente acentuada. na grande cidade o isolamento é acompanhado pela presença de uma infinidade de outras pessoas, agrupadas em um mesmo espaço, e cada qual, por sua vez, também individualmente isolada.
a insônia de de niro e seu deslocamento noturno diário dentro de um taxi levam ao limite a angústia urbana, a repugnância pela decadência e pela sujeira da cidade. o homem urbano solitário é um tipo perigoso, para o qual as distrações deixaram de distrair; rompe a corrente da multidão. de niro identifica rostos tristes na cidade e coloca-se a missão de fazer algo importante a respeito.

sexta-feira, 30 de julho de 2010