domingo, 7 de fevereiro de 2010

conflito

um mendigo dormindo em um banco de praia em santos. classifico como mendigo um certo tipo sempre sujo e bêbado que dorme na rua em pleno dia. será que ele se entende como mendigo? talvez para ele isso não seja uma questão. quero dizer, isso de classificar os tipos e a si mesmo. as coisas vão se encaixando: "a gente vê na cara quem é bandido", "esse aí só pelo jeito é vagabundo". para um pai de família de classe média, meia idade, bem sucedido profissionalmente, classificar é uma questão. mais que isso, é um instinto que preserva sua segurança e seu bom gosto. o que me autoriza a ver alguém na rua e classificar como mendigo/bandido/vagabundo? são as marcas que ele trás na cara e no jeito. por essas marcas sei se estou passando perto 1- do mendigo/bandido/vagabundo, 2-do trabalhador, simples, honesto, humilde, pobre mas inofensivo, 3- ou do meu igual. a classe média gosta do trabalhador que luta pelo pão de cada dia. ele é um exemplo de superação, exemplo de que a pobreza não justifica o crime. ele é um tipo contra o qual o homem de classe média bem sucedido pode exercer sua superioridade tratando-o como aquele cuja obrigação é servi-lo bem, "se quiser subir na vida". já o mendigo/bandido/vagabundo é uma ameaça completa, contra o qual é preciso recorrer à polícia. o mendigo/bandido/vagabundo não ocupa nenhuma posição em que necessite servir para garantir algum privilégio: da postura humilde de quem pede esmola, passa rápido à violência do roubo.
um mendigo dormindo em um banco de praia em santos. chega o policial de bicicleta, apoia o pé na ponta do banco e acorda o mendigo, "você comprou o banco?" o mendigo deixa de deitar-se e fica sentado.

(diálogo sobre o fato)
- o policial não precisava fazer isso...
- humm...o problema é que se deixar, não sobra nenhum banco.

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