sábado, 24 de abril de 2010

tédio

todas as coisas estão se deteriorando o tempo todo. as coisas e as pessoas vão lentamente sendo consumidas pelo tempo até o fim. ainda assim a aparência de imobilidade encobre a realidade, que é a realidade da morte.
uma tarde de domingo olhando para o teto, esperando pela segunda-feira. a "falta do que fazer" moderna generalizada, contamina a vontade fora do tempo de trabalho. assim, o tempo insuportável do trabalho opõe-se ao tempo insuportável fora do trabalho. a raiva de ter que obedecer a um superior se opõe ao vazio de não ter quem diga o que fazer em seguida; a impotência de ter uma série automática, previzível e repetitiva de tarefas sem sentido no tempo de trabalho, opõe-se à angústia da imprevisibilidade do curto tempo livre.
a televisão, a internet, os vídeo games, etc. preenchem o vazio causado pela ausência da obrigação.
deste modo a indústria do entretenimento tenta evitar o tédio. deste modo o motorista de ônibus recupera pacificamente sua disposição para retornar a seu trabalho mal pago e desgastante; o homem-de-meia-idade-bem-sucedido-de-classe-média evita passar o fim de semana ouvindo a esposa com suas lamúrias invejosas de clube e salão (ineficaz) de beleza; a mulher-de-meia idade-bem-casada evita abandonar o marido traidor e sexualmente impotente; o jovem de classe média pode rir sozinho diante da tela de um filme cult, do youtube, da oportunidade de vencer os alienígenas em uma décima sequência de um jogo eletrônico...
progressivamente, a rotina da vida moderna é sentida como natural e inevitável. fatalmente, as condições da produção/reprodução capitalistas provocam alienação e isolamento em todos os níveis.

Um comentário:

  1. caralho. desmascarar a naturalização de uma vida alienada [a rotineira "vida moderna"] é possível, individualmente, mas, e além? tento planejar algo e não consigo. bate até uma vontadinha de sair da vida pela porta dos fundos sem pagar a conta. por enquanto vou pra a sarjeta de vez em quando, apenas.

    minha aleatoriedade momentânea da "falta do que fazer":
    "[...]
    E baseado num tratado de clínica geral
    Declare depois de cauterizar o meu ânus
    Que tudo não passou de um engano
    Que tudo não passou de um engano"
    falcão, desamassamento solda e pintura

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