sábado, 29 de maio de 2010

humanidades

1- algumas vezes o filho da classe média resolve ser estudante de ciências humanas. entretanto, seu orgulho pelo desgosto que provoca nos pais é o máximo onde pode chegar sua rebeldia. de resto, o estudante de ciências humanas filho da classe média difere de engenheiros e estudantes de outras áreas técnicas, na medida do possível, apenas na aparência. o engenheiro, produto e agente de reprodução do capitalismo, é o tipo a partir do qual o estudante de ciências humanas filho da classe média constrõe, por oposição, sua identidade. no entanto, apesar de suas roupas e opiniões políticas serem diferentes das dos estudantes de engenharia, em suas atitudes e modo de vida o estudante de ciências humanas filho da classe média sustenta os mesmos privilégios de classe e preconceitos sociais que seu outro expressa em suas atitudes, modo de vida e opiniões políticas.
2- depois de alguns anos de leituras mal feitas, o estudante de ciências humanas filho da classe média começa a se sentir muito esperto. a habilidade de distorcer as coisas garante a possibilidade de justificar seu egoísmo como sendo autonomia; de disfarçar suas atitudes irresponsáveis como se fossem ruptura com valores-hegemônicos-burgueses-dominantes; e de fazer parecer que seu conformismo é consciência da insignificância do sujeito na história e consciência da natureza puramente discursiva da noção de verdade.

terça-feira, 18 de maio de 2010

chuck e larry

quando um filme feito para o grande público tem intenção de divertir ao mesmo tempo em que quer dizer algo contra preconceito aos homossexuais, ele não consegue, entretanto, deixar de reproduzir elementos deste mesmo preconceito.
é repetida a ideia de aceitar as diferenças, de aceitar as pessoas como elas são. no entanto o filme reforça que o que difere o homossexual do heterossexual, é seu comportamento ridículo e exagerado. a depravação sexual aparece como atributo do homossexual, como se fosse inerente à sua natureza, como se o homossexual não pudesse evitar, em todas as situações de sua vida, de assediar sexualmente quaisquer pessoas do mesmo sexo que o dele.
a aceitação da diferença aparece então como "aceitemos o ridículo. apesar disso, ele é um ser humano".
a reprodução velada do preconceito não é exclusiva do cinema, evidentemente. a ideologia hipócrita da sociedade capitalista moderna difunde o preceito do respeito à diferença, como o respeito a algo que se pode tolerar desde que a diferença esteja restrita ao "mero" comportamento sexual; desde que no campo da economia política o homossexual acate os valores hegemônicos (casamento, etc), seu comportamento privado não diz respeito à sociedade.
cada vez mais, desde que se seja profissionalmente bem qualificado, empreendedor, capaz de respeitar autoridade/hierarquia, todo o resto é mais ou menos hipocritamente tolerado.

sábado, 15 de maio de 2010

ben stiller

é muito comum acontecer de ligar a tv e encontrar algum um filme do ben stiller para assistir. em qualquer de seus filmes, ben stiller representa o idiota, ou o fracassado. é idiota e fracassado a ponto de atrair a simpatia do telespectador, que ri inocentemente diante das situações embaraçosas e absurdas em que ben stiller inevitavelmente se envolve. a simpatia do telespectador pelo tipo do idiota fracassado é um misto de compaixão e identificação - autocompaixão, portanto.
em uma noite no museu, ben stiller, o pai divorciado, que ainda ama a ex-mulher, é mal exemplo para o filho porque não consegue emprego. o filho chora por ver que o pai é um completo irresponsável. ben stiller, então, aceita um sub-emprego de guarda noturno - em um museu onde as peças criam vida -, movido por um ciúmes impotente despertado ao perceber que seu filho gosta do novo namorado da mãe, um homem estável e bem sucedido.
em antes só que mal casado, ben stiller sofre por ser um homem de meia idade, que além de trabalhar em uma loja como vendedor de roupas esportivas, ainda é solteiro, após acumular fracassos amorosos.
em todo caso, o idiota acaba tendo alguns momentos de sorte em meio ao absurdo do fracasso total. mostra que por pior que seja, é possível superar as adversidades... isso porque o idiota tornou-se simpático, o fracasso confundiu-se com bondade e a felicidade com ser casado/bom pai/profissional exemplar.

terça-feira, 11 de maio de 2010

domingo, 9 de maio de 2010

para mães e filhas

"O aparato produtivo e as mercadorias e serviços que ele produz 'vendem' ou impõem um sistema social como um todo. Os meios de transporte e comunicação em massa, as mercadorias, casa, alimento e roupa, a produção irresistível da indústria de diversões e informações, trazem consigo atitudes e hábitos prescritos, certas reações intelectuais e emocionais que prendem os consumidores mais ou menos agradavelmente, e através destes, ao todo. Os produtos doutrinam e manipulam; promovem uma falsa consciência que é imune à sua falsidade." - herbert marcuse
(clique para aumentar)

"Muitas meninas quando chegam à adolescência mostram que herdaram características, hábitos e até os mesmos gostos da mãe."

"Também pode acontecer na hora de escolher uma roupa íntima."

"[...], algumas marcas já criaram coleções especiais para serem usadas por ambas, mãe e filha."

sábado, 1 de maio de 2010

aparelho ideológico de estado .2


aparelho ideológico de estado. na verdade nem é tudo isso.
minosofá (!!); assistir futebol com os amigos, assunto de homem, etc. depois que os amigos vão embora, hora de tirar a camisa, e passar desodorante axe; de dentro do sofá onde estavam sentados os amigos - e que também é o corpo do minosofá(!!!) - saem duas (duas!) escravas sexuais - tudo no seu lugar...nada de mais. tudo é divertido e inocente. o sonho de ter escravas sexuais e corpo de sofá tornando-se realidade graças ao axe

geisy


"Geisy Arruda lançou sua grife de roupa, Rosa Divino, com seis peças inspiradas no famoso e polêmico vestidinho curto da Uniban. "

"Desta vez, contudo, em vez de desfilar sob xingamentos dos alunos nos corredores da faculdade, Geisy recebeu algo bem diferente: flashes, dezenas de fotógrafos, luzes, câmeras, microfones e assédio de fãs. "

"'A moda que eu quero lançar é esta, para a dona de casa, a mulher que trabalha, que dá duro, eu quero vestir a mulher brasileira'".

"Os vestidos serão vendidos a partir da próxima segunda-feira apenas para o atacado com o preço variando entre R$ 49 e R$ 69. 'Acredito que ele chegará às lojas com o preço final entre R$ 120 e R$ 150'"

manduca

"Manduca vivia no interior da casa, deitado na cama, lendo por desfastio. Ao domingo, sobre a tarde, o pai enfiava-lhe uma camisola escura, e trazia-o para o fundo da loja, donde ele espiava um palmo da rua e a gente que passava. Era todo o seu recreio. Foi ali que o vi uma vez, e não fiquei pouco espantado; a doença ia-lhe comendo parte das carnes, os dedos queriam apertar-se; o aspecto não atraía, decerto. Tinha eu de treze para quatorze anos. Da segunda vez que o vi ali, como falássemos da guerra da Criméia, que então ardia e andava nos jornais, Manduca disse que os aliados haviam de vencer, e eu respondi que não.
[...]
e daí continuou por algum tempo uma polêmica ardente, em que nenhum de nós cedia, defendendo cada um os seus clientes com força e brio. Manduca era mais longo e pronto que eu. Naturalmente a mim sobravam mil coisas que distraíam, o estudo, os recreios, a família, e a própria saúde, que me chamava a outros exercícios. Manduca, salvo o palmo de rua ao domingo de tarde, tinha só esta guerra, assunto da cidade e do mundo, mas que ninguém ia tratar com ele. O acaso dera-lhe em mim um adversário; ele, que tinha gosto à escrita, deitou-se ao debate, como a um remédio novo e radical. As horas tristes e compridas eram agora breves e alegres; os olhos desaprenderam de chorar, se porventura choravam antes.
[...]
Manduca enterrou-se sem mim." - machado de assis, dom casmurro

o filho da classe média escritor de blog é como o leproso amigo de bentinho. o leproso amigo de bentinho ocupa os dias que lhe restam dedicando-se a assunto banal, sem serventia para entreter seu único leitor (bentinho, que tem mais o que fazer), sem intenção de instruir, sem possibilidade de contribuir com revoluções.