quinta-feira, 24 de junho de 2010

homem médio

o homem de meia idade, classe média, pretensões médias, chegou ao topo do sucesso profissional - o único que tem, o único que consegue ver como sucesso. a essa altura seu salário permite trocar de carro a cada dois anos; em conversas informais esta possibilidade é narrada com seriedade e modéstia, como algo essencial mas reservado aos poucos capazes de planejamento, poupança, visão a longo prazo: estabilidade. o homem-médio vota no psdb a cada dois anos e se envergonha do operário que por hora ocupa a presidência: não importa que o pt governe para a classe média, o homem médio quer ser representado por alguém que fale francês, por alguém com formação. o homem médio, no auge de seu sucesso, pode comprar t.v. lcd, um computador mais atualizado; pode fazer planos para a compra de um blue ray player - porque logo o preço vai baixar, logo dvd não vai mais existir. alta definição, digital qualquer coisa, muito mais megapixels.
entretanto, o homem médio não vê filmes - como, evidentemente, não lê mais que notícias de jornal. sua t.v. lcd com blue ray serve para alguns minutos de qualquer filme começado, e que não será visto até o fim; jornal nacional, futebol de domingo. computador novo, para não mais que verificar e-mails de trabalho.
apenas o encantamento da técnica, o desejo de possuir algo que oferece possibilidades aparentemente incríveis. o homem cuja vida foi gasta na aprendizagem de procedimentos técnicos de trabalho, esgota na distração as vantagens que seu poder de consumo lhe oferece.

Um comentário:

  1. Genial. Só mudaria o tempo de troca de carro, em vez de 2 em 2 anos de 4 a 4 anos. Mas acho que isso não abala a estrutura do texto e tal, que é simplesmente fantástico.
    E cruel. Porque realmente, é uma análise que dá impressão da perda de vida do homem médio.

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