sábado, 31 de julho de 2010

isolamento .3 taxi driver

"Até mesmo a multidão que se movimenta pelas ruas têm qualquer coisas de repugnante, que revolta a natureza humana. Esses milhares de indivíduos, de todos os lugares e de todas as classes, que se apressam e se empurram, não serão todos eles seres humanos com as mesmas qualidades e capacidades e com o mesmo desejo de serem felizes? E não deverão todos eles, enfim, procurar a felicidade pelos mesmos caminhos e com os mesmos meios? Entretanto, essas pessoas se cruzam como se nada tivessem em comum, como se nada tivessem a realizar uma com a outra e entre elas só existe o tácito acordo pelo qual cada uma só utiliza uma parte do passeio para que as duas correntes da multidão que caminham em direções opostas não impeçam seu movimento mútuo - e ninguém pensa em conceder ao outro sequer um olhar" - friedrich engels, a situação da classe trabalhadora na inglaterra

o homem urbano solitário tem a percepção de seu isolamento constantemente acentuada. na grande cidade o isolamento é acompanhado pela presença de uma infinidade de outras pessoas, agrupadas em um mesmo espaço, e cada qual, por sua vez, também individualmente isolada.
a insônia de de niro e seu deslocamento noturno diário dentro de um taxi levam ao limite a angústia urbana, a repugnância pela decadência e pela sujeira da cidade. o homem urbano solitário é um tipo perigoso, para o qual as distrações deixaram de distrair; rompe a corrente da multidão. de niro identifica rostos tristes na cidade e coloca-se a missão de fazer algo importante a respeito.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

sábado, 24 de julho de 2010

império dos sonhos

1-a vida se funde e se confunde com o cinema. hoje em dia os filmes fornecem modelos que servem ao espectador como guia para a vida. modos de ser, de agir, de reagir, de ver, sentir e pensar. tendo em vista sua natureza de produto para massas, os filmes, em seu conjunto, formam uma massa de imagens que pairam sobre toda uma comunidade de espectadores, como referenciais reconhecidos por todos. então o filme define modos de agir que implicam modos adequados de reagir. o espectador, em sua busca instintiva e irrefreada por modelos, se sente perdido quando david lynch, em uma certa cena, coloca uma personagem completamente inexplicável na totalidade do roteiro, que diz coisas absurdas a uma outra personagem que permanece impassível, levando a diante a situação, ao invés de escandalizar-se, pedir explicações, ou esboçar alguma reação aceitável diante de uma ação absurda. ou, ao contrário, lynch às vezes choca seu espectador com personagens que tem reações absolutamente desesperadas, histéricas, absurdas, diante de situações corriqueiras.
2- no fim de semana o estudante universitário cult procura um filme alternativo na locadora. chega em casa e começa a assistir um filme como o império dos sonhos pensando em como justificará o fato de não ter gostado. ele não sabe que david lynch o provoca compondo sequências promissoras que não tem resolução na sequência seguinte. são temas de apelo psicológico, ou seja, imagens absolutamente recorrentes no cinema, como na cultura ocidental - e a um certo ponto essas coisas não se distinguem; situações conhecidas e reconhecidas pelo público; situações para as quais o público tem um repertório mental de reações esperadas. lynch é muito claro ao expô-las: na primeira cena importante do filme, a mulher estranha conta uma história absurda a laura dern - que ouve como se não fosse nada -, e conclui explicando que trata-se de uma lenda muito antiga. as lendas antigas são os lugares das imagens mais profundamente arraigadas no funcionamento psicológico, na medida em que são recorrentes e surgem a todo momento ao longo do tempo, na medida em que revestem tradições. além dessa imagem da lenda contada pela mulher estranha - sobre uma casa de tijolos em um bosque no fim da rua, envolvendo um assassinato, etc - que aparece como tema, há as imagens propriamente. por exemplo, os longos corredores estreitos e os enquadramentos que focalizam salas que têm ao fundo uma porta entraberta, cujo interior escuro sugere, pelo movimento da câmera e pela música, a presença de um intruso naquele local. são imagens recorrentes na composição de sentidos na narrativa cinematográfica convencional. devido à longa exposição do espectador ao cinema, essas imagens criam espectativas que lynch frustra, negando-lhe o simples prazer do susto previsível, para, mais adiante chocar com a composição da mais completa implausibilidade.
3- mas, o que realmente importa, o filme está confundido com a vida a tal ponto que não se distingue dela. na vida moderna os sujeitos atuam. a forma de falar, de apresentar-se, de reagir, enfim, têm a ver com a personagem que cada um assume para si. alguns pensam que são de niro em taxidriver, outros, que são vin diesel em qualquer filme.
a lágrima no olho do turista que observa o nascer do sol em uma cidadezinha retirada do interior, é produzida pelo olhar habituado ao enquadramento cinematográfico do mundo; a panorâmica focaliza as montanhas e os primeiros raios de sol surgindo por entre as nuvens. o espectador do mundo mal pode deixar de imaginar um quarteto de cordas como trilha sonora que converta a realidade em ilusão.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

voto consciente

portal msn

"Claudia Leitte, Fiuk, Marcelo do Strike, Luiza Possi, Lucas Silveira, João Dória Junior, Bruno Gouveia, Otávio Mesquita, Di Ferreiro e Pitty, deixam o seu recado e alertam o público ouvinte para votar com responsabilidade durante as eleições de outubro deste ano."

"Os artistas sabem da importância dessa campanha e não deixaram de apoiá-la”

terça-feira, 20 de julho de 2010

juventude

desde a pretensa participação política no impeachment de collor a visão de mundo da juventude de classe média não permite mais que pequenos gestos simbólicos individuais. aos 15 anos começa a ser formada a CONSCIÊNCIA CRÍTICA de um garoto que lê harry potter, ouve nxzero e acha que avatar 3d é o melhor filme já feito. aprende com seu professor de história do cursinho sobre as injustiças e as desigualdades sociais... aprende na mtv que, mesmo não sendo adulto, já é hora de posicionar-se criticamente, votar consciente, cobrar e fiscalizar prefeito e vereadores de sua cidade: isso é ação política.
assistindo à mtv com os filtros do professor do cursinho, o jovem de classe média decide que não comerá mais no mcdonalds, como atitude anti-capitalista.
pelo fato de que ele não se dê conta de que todo o seu modo de vida baseia-se no modo de produção capitalista, e que o sustenta, passados alguns anos este jovem tende a atenuar seu radicalismo. ao fazer 18 anos estará cursando engenharia em uma boa universidade, terá amadurecido suas idéias, deixando de lado preocupações que não levam a lugar nenhum. neste ponto entenderá, enfim, que a vida é para ser vivida, e que ele é livre para comer no mcdonalds!

sexta-feira, 16 de julho de 2010

isolamento .2

1- a televisão é o alívio do silêncio na mesa do jantar da família brasileira de classe média; tem-se a impressão de que é indispensável a presença da televisão contra o constrangimento do silêncio que se faz entre pessoas que não tem nada a dizer umas às outras, apesar de estarem constrangidas a viverem sob o mesmo teto. mas a televisão reproduz o silêncio e é solução contra a ocasião de dizer mais que palavras vazias; a televisão é solução contra o impulso latente de iniciar conflitos abertos.
2- o ocultamento da realidade da morte é o ponto central da aceitação da vida cretina à qual estão submetidas todas as pessoas na sociedade capitalista. o cotidiano gasto com trabalho alienado e distrações é possível pelo tabu que a afasta a morte da vida. aqueles que estão no fim da vida vão com o andar lento e palavras sem sentido saídas de cérebros danificados pelo tempo; remédios e arrependimentos. o olhar enigmático dos velhos é como uma ameaça.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

isolamento

à essa altura não posso mais suportar que me dirijam a palavra para jogar conversa fora. em um prédio de 12 andares vivem dezenas de pessoas que não se conhecem e não fazem a menor questão de se conhecer. não posso suportar que um estranho no elevador comente sobre a copa do mundo como se isso nos unisse - sem falar nos comentários sobre frio, calor, chuva, etc. pouco me importa a copa do mundo. isso não o tornará menos estranho.
chega o momento em que qualquer sinal de simpatia gratuita é sentida como ofensa. frequentemente coisas que não precisam ser ditas encontram alguém que não quer ouvi-las. à essa altura não posso mais suportar os intermináveis falatórios de senso comum; concordar apenas por cordialidade com absurdos ditos ao acaso.
há quem aproveite todas as oportunidades para preencher os vazios com juízos preconceituosos sobre as coisas.

domingo, 11 de julho de 2010

imagens




"O princípio do fetichismo da mercadoria, a dominação da sociedade por 'coisas supra-sensíveis embora sensíveis', se realiza completamente no espetáculo, no qual o mundo sensível é substituído por uma seleção de imagens que existe acima dele, e que ao mesmo tempo se faz reconhecer como o sensível por excelência." - guy debord, a sociedade do espetáculo






"Donde esses textos publicitários já famosos e que merecem passar a posteridade, porque a publicidade torna-se aqui uma ideologia. Parly II 'faz nascer uma nova arte de viver', 'um novo estilo de vida'. A vida cotidiana parece um conto de fadas. 'Deixar seu casaco no vestiário da entrada e, mais leve, dar suas caminhadas após ter deixado as crianças no jardim de infância da galeria, encontrar os amigos, tomarem juntos um drink no bar'... E eis a imagem realizada da alegria de viver. A sociedade de consumo traduz-se em ordens: ordem de seus elementos no terreno, ordem de ser feliz. Eis o contexto, o palco, o dispositivo de sua felicidade. Se você não souber aproveitar a ocasião de pegar a felicidade que lhe é oferecida para fazer dela a sua felicidade é que... Inútil insistir!" - henri lefebvre, o direito à cidade