sábado, 24 de julho de 2010

império dos sonhos

1-a vida se funde e se confunde com o cinema. hoje em dia os filmes fornecem modelos que servem ao espectador como guia para a vida. modos de ser, de agir, de reagir, de ver, sentir e pensar. tendo em vista sua natureza de produto para massas, os filmes, em seu conjunto, formam uma massa de imagens que pairam sobre toda uma comunidade de espectadores, como referenciais reconhecidos por todos. então o filme define modos de agir que implicam modos adequados de reagir. o espectador, em sua busca instintiva e irrefreada por modelos, se sente perdido quando david lynch, em uma certa cena, coloca uma personagem completamente inexplicável na totalidade do roteiro, que diz coisas absurdas a uma outra personagem que permanece impassível, levando a diante a situação, ao invés de escandalizar-se, pedir explicações, ou esboçar alguma reação aceitável diante de uma ação absurda. ou, ao contrário, lynch às vezes choca seu espectador com personagens que tem reações absolutamente desesperadas, histéricas, absurdas, diante de situações corriqueiras.
2- no fim de semana o estudante universitário cult procura um filme alternativo na locadora. chega em casa e começa a assistir um filme como o império dos sonhos pensando em como justificará o fato de não ter gostado. ele não sabe que david lynch o provoca compondo sequências promissoras que não tem resolução na sequência seguinte. são temas de apelo psicológico, ou seja, imagens absolutamente recorrentes no cinema, como na cultura ocidental - e a um certo ponto essas coisas não se distinguem; situações conhecidas e reconhecidas pelo público; situações para as quais o público tem um repertório mental de reações esperadas. lynch é muito claro ao expô-las: na primeira cena importante do filme, a mulher estranha conta uma história absurda a laura dern - que ouve como se não fosse nada -, e conclui explicando que trata-se de uma lenda muito antiga. as lendas antigas são os lugares das imagens mais profundamente arraigadas no funcionamento psicológico, na medida em que são recorrentes e surgem a todo momento ao longo do tempo, na medida em que revestem tradições. além dessa imagem da lenda contada pela mulher estranha - sobre uma casa de tijolos em um bosque no fim da rua, envolvendo um assassinato, etc - que aparece como tema, há as imagens propriamente. por exemplo, os longos corredores estreitos e os enquadramentos que focalizam salas que têm ao fundo uma porta entraberta, cujo interior escuro sugere, pelo movimento da câmera e pela música, a presença de um intruso naquele local. são imagens recorrentes na composição de sentidos na narrativa cinematográfica convencional. devido à longa exposição do espectador ao cinema, essas imagens criam espectativas que lynch frustra, negando-lhe o simples prazer do susto previsível, para, mais adiante chocar com a composição da mais completa implausibilidade.
3- mas, o que realmente importa, o filme está confundido com a vida a tal ponto que não se distingue dela. na vida moderna os sujeitos atuam. a forma de falar, de apresentar-se, de reagir, enfim, têm a ver com a personagem que cada um assume para si. alguns pensam que são de niro em taxidriver, outros, que são vin diesel em qualquer filme.
a lágrima no olho do turista que observa o nascer do sol em uma cidadezinha retirada do interior, é produzida pelo olhar habituado ao enquadramento cinematográfico do mundo; a panorâmica focaliza as montanhas e os primeiros raios de sol surgindo por entre as nuvens. o espectador do mundo mal pode deixar de imaginar um quarteto de cordas como trilha sonora que converta a realidade em ilusão.

Nenhum comentário:

Postar um comentário