segunda-feira, 30 de julho de 2012

racismos


hoje em dia, felizmente, é possível denunciar e punir imediatamente racismos declarados. é o que aparece no site do yahoo! sobre um caso das olimpíadas.
mas também no yahoo! há uma matéria com "A mais bela equipe de Londres", a equipe olímpica holandesa de hóquei sobre grama.
o racismo declarado é denunciado e punido, mas a cultura que o torna possível não pode ser percebida. as pessoas acreditam que cada coisa é uma coisa, separadamente. no fundo do que se considera belo em si há uma disposição estética que funciona a partir de operações mentais tácitas de segregação.
a produção do padrão dominante de beleza faz parecer que é obra da natureza que as mulheres mais bonitas sejam brancas, loiras, de olhos claros. (e de modo geral, as mulheres negras e asiáticas consideradas bonitas são aquelas cujos traços mais se aproximam do "caucasiano", apesar da diferença na cor da pele e outras particularidades, que aparecem como erotismo exótico.)
trata-se de esporte, mas todos os dias as notícias olímpicas sobre modalidades femininas são abordadas sob o ponto de vista do objeto sexual, com o qual o olhar masculino identifica os corpos das atletas.

domingo, 8 de julho de 2012

desgraça sem morte

a cobradora do ônibus mal consegue entrar na cadeira de cobradora. diz que o espaço é pouco e os passageiros mal educados batem a roleta na perna dela até quase a fratura exposta.
o velho triste ao lado aproveita para dizer e compartilhar tristezas, mostrar seu desacordo sobre o mal do mundo.
isso durou umas dez vinte palavras. o velho triste permaneceu a longa viagem toda, até o terminal-central, olhando para  a cobradora. o velho triste queria a oportunidade da dor da cobradora como ocasião para romper sua mudez solitária. nada aconteceu. se ela reclamasse mais ele poderia ter dito mais; poderia ter criado aproximações pela identificação que causa o sofrimento proveniente de um mal maior e comum.
mas esse mal maior comum permanece indistinto, insuperável, invisível, romantizado.