domingo, 8 de julho de 2012

desgraça sem morte

a cobradora do ônibus mal consegue entrar na cadeira de cobradora. diz que o espaço é pouco e os passageiros mal educados batem a roleta na perna dela até quase a fratura exposta.
o velho triste ao lado aproveita para dizer e compartilhar tristezas, mostrar seu desacordo sobre o mal do mundo.
isso durou umas dez vinte palavras. o velho triste permaneceu a longa viagem toda, até o terminal-central, olhando para  a cobradora. o velho triste queria a oportunidade da dor da cobradora como ocasião para romper sua mudez solitária. nada aconteceu. se ela reclamasse mais ele poderia ter dito mais; poderia ter criado aproximações pela identificação que causa o sofrimento proveniente de um mal maior e comum.
mas esse mal maior comum permanece indistinto, insuperável, invisível, romantizado.

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