quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

consciência e bom gosto


um dia o filho de uma boa família conseguirá por seus méritos individuais, suas qualidades próprias, um bom nível de conforto para si. imediatamente a partir desse dia, ele se sentirá ofendido em seus princípios pela palavra capitalismo, saída da boca de outro filho de família boa.
ele irá defender-se, indicando, com alívio de consciência, que esse outro bom filho de família criticamente pretencioso toma coca-cola e, portanto, não tem decência moral para colocar palavras contra o capitalismo.
"capitalismo", se ninguém está fora dele ele é a natureza e, portanto, não deve ser enunciado como coisa a parte, pensa o bom gosto encarnado profundamente no corpo do filho bom, recentemente bem sucedido. 

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

fim do mundo


a atual expectativa pelo fim do mundo é expressão legítima da visão de mundo do tipo social que hoje domina o mundo e que vai dominando-o cada vez mais até que seu entendimento particular das coisas seja convertido em verdade evidente.
a concepção cristã de tempo é linear. compreende o período do antigo testamento até o ano zero e depois disso até o retorno de cristo e o apocalipse.
a cultura maia, como muitas culturas da américa antes da chegada dos europeus, tinha uma concepção cíclica de tempo, na qual estava implicada uma sucessão contínua de fins e recomeços. nesse sentido a ideia de fim para os maias nada tem que ver com a ideia de fim para os contemporâneos ocidentalizados. "fim do mundo": a idéia de "mundo" para os maias nada tem que ver com a idéia de "mundo" para os contemporâneos. para os contemporâneos não tem sentido pensar em "ideia" de mundo: o mundo é o mundo, o fim é o fim, o tempo é o tempo.
o fim do mundo cristão, relacionado ao milênio, era um problema real para os europeus que viram chegar o ano mil. hoje ele é tratado como piada que encobre, se não o medo, uma desconfiança de que talvez isso possa mesmo ser verdade. trata-se, primeiramente, da característica básica da cultura que hoje domina o mundo: o total desapego ao conhecimento e o fascínio por boatos vindos do nada, mas tornados consistentes pela repetição na televisão e no facebook.
em segundo lugar, como elemento constitutivo e profundamente arraigado à cultura que hoje domina o mundo, é a incapacidade implicita de reconhecer que possa existir visão diferente da sua, que hoje é para todas as pessoas, indubtavelmente a expressão pura e justa da natureza.