terça-feira, 22 de janeiro de 2013

vocação e alienação



"eu gosto do que faço" é a afirmação que hoje substitui a possibilidade de dizer "eu faço o que gosto". é uma afirmação profissional que inclui uma posição diante da existência, e é o que as empresas chamam de “vestir a camisa". um bom salário significa reconhecimento; a promoção para um cargo mais elevado significa ser digno de confiança; bons resultados são felicidade.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

identidade e consumo mimético




                                      


1-os camelôs do terminal central se vestem como o michel telo, o luan santana e como o neymar, – falam, olham, andam como eles, têm cabelos como os deles, mas não têm o dinheiro deles. as donas de casa mães de família são como a meryl streep em comédias românticas de auto-ajuda para mulheres de meia idade, e como a ana maria braga e a fátima bernardes.
2- fotos de balada no facebook: os estudantes universitários têm atitude como a do jota quest porque chegar a parecer com o nx0 pode ser ridículo. garrafa de heineken na mão para tirar foto demonstra um gosto que revela atitude.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

observações de ocasião

existe uma complexidade de relações entre mendigos, traficantes e varredores de rua no terminal central. os mendigos carregam grandes quantidades de lixo para vários pontos do terminal. eles permanecem no meio do lixo, cobertos de sujeira e roupas rasgadas, deitados pelo chão. os traficantes circulam por ali, abastecem de crack os miseráveis. os traficantes usam roupas e tênis novos, coloridos, correntes brilhantes no pescoço, cabelo cortado com estilo. os mendigos espalham-se pelo chão junto com o lixo, que os varredores da prefeitura recolhem eternamente, sem propósito. os varredores são trabalhadores mal pagos, vestem uniformes sujos e velhos que os tornam invisíveis. eles são evangélicos, agradecem a deus por não serem eles os que entram no crack, por terem uma ocupação – toda ocupação é digna e o crack é obra do diabo para quem está longe de cristo.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

impressões sobre a carta ao pai, de franz kafka



as pessoas só gostam de um tipo como o kafka porque não tiveram a oportunidade de conviver com ele. a verdade é que na vida real ninguém gosta dos solitários melancólicos. é por isso que são solitários, e é graças a isso que tem matéria para escrever suas genialidades que de longe todo mundo admira. de longe todo mal parece um mal com o qual é possível dar-se o direito de ter identificação. depois de escrito, o sofrimento alheio parece beleza, depois de morto o solitário parece que seria um bom companheiro, para conversas inteligentes.
“o que me atinge de modo decisivo é outra coisa. é a pressão generalizada do medo, da fraqueza, do autodesprezo.” isso, no entanto, não é coisa que se diga na vida real.

hoje em dia a ideologia do mérito serve como parâmetro também da avaliação das relações pessoais: não se admite fraqueza sem ter que arcar com o risco de ser considerado inferior, indigno, conformista.