quarta-feira, 22 de maio de 2013

a legitimação tácita dos valores dominantes


Três casos particulares:




1- um comercial de carro: dois funcionários de escritório de alguma empresa. um deles é magro, usa roupa social mas é meio desalinhado. ele pergunta ao outro “como foi seu fim de semana?” o outro, que tem boa postura e é do tipo responsável mas descolado: ele vai com seu carro para o estádio com os amigos e vê seu time marcando gol; depois ele vai para um jantar romântico com uma mulher bonita; depois para uma festa. a felicidade de quem é bom o bastante para ter um bom carro. “e o seu?” pergunta o dono do carro e da felicidade que ele permite. o colega, com ar de idiota, típico perdedor, responde “deixa pra lá”. eis o efeito cômico da inveja impotente dos derrotados.



2- uma propaganda de cerveja. três machos típicos assistem futebol na televisão. um deles diz “imagina a gente lá!” e eles aparecem no estádio. no estádio um dos outros vê em outro lugar do estádio, espanholas bonitas com bons decotes. ele diz “imagina a gente com as espanholas!” e eles aparecem perto das espanholas. finalmente, o último dos três, o único dos três que é feio de um jeito cômico, gordinho simpático, inofensivo, que pode assumir a condição de amigo idiota indispensável. ele diz “imagina a gente lá!” e os três aparecem pendurados no alto do suporte que sustenta uma câmera de televisão.


3- a comédia romântica para gente inteligente, “alta fidelidade”, trata de dramas de relacionamento. rob tenta descobrir durante o filme todo, porque nenhum de seus relacionamentos funciona. os dois assistentes da loja de discos de rob são os típicos coadjuvantes, representam os coadjuvantes da vida real. um gordinho com jeito de louco e um baixinho careca que de tão tímido precisa fazer muito esforço até para falar. entretidos com suas bobagens cotidianas engraçadas, cabe a eles pontuar com seus modos simpáticos e desajeitados a trama realmente digna de atenção, na qual estão envolvidos os personagens bonitos e propensos à normalidade, apesar de seus desvios, que justificam o filme, à medida que existem para ser corrigidos.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

duplicações


sempre que eu esqueço quem eu sou, só o que eu preciso fazer é olhar meu perfil de facebook. aí logo eu me lembro do sentido que devem ter os livros, filmes e músicas que eu coloco como coisas que eu gosto. selecionar o que eu quero que os outros saibam de mim, é sempre um exercício de moldar para mim mesmo uma forma fixa do que sou. que tipos de gostos culturais e (gostos) políticos eu quero que sejam associados a mim, depende do que eu posto e do que eu curto.
posso também ver minhas fotos, as que eu postei e aquelas em que eu fui marcado. com isso vou me lembrar que no meio da monotonia há momentos felizes: eles estão registrados. vou me lembrar de como é minha expressão nos dias de festa.
as pessoas irão me encontrar na rua e, conhecendo minha atividade no facebook, ter a certeza de que me conhecem de fato. e cada vez mais elas terão razão em achar dessa forma, pois as coisas tendem a coincidência entre o ser-de-fato e o perfil do facebook.